Atualização de diretrizPneumologia

Exacerbação de asma no atendimento agudo: o que muda no GINA 2026

Avaliação de gravidade, tratamento inicial, reavaliação e alta segura em adultos e adolescentes.

Ilustração editorial de pulmões e inalador em tons de azul e ciano
Ilustração original · DR.GETULIO OS
Índice do artigo
Versão editorial pré-publicaçãoAtualizado em 24 de julho de 2026 · Revisão declarada: revisão clínica pendente antes da publicação definitiva

Em 2026, o GINA reorganizou o atendimento agudo em fluxos separados por cenário e gravidade. A mudança mais útil não é uma nova “receita”, mas uma sequência mais disciplinada: reconhecer gravidade pela pior característica, tratar sem atraso, reavaliar a resposta antes de repetir automaticamente e planejar a prevenção da próxima crise.

Escopo deste artigo: adultos e adolescentes atendidos na atenção primária, pronto atendimento ou emergência. Crianças exigem avaliação pediátrica específica e, até os 17 anos, o GINA recomenda um escore clínico validado de gravidade.

O essencial em 2026

Quatro ajustes merecem mudar o comportamento à beira-leito:

01

Quatro graus de apresentação

Leve, moderada, grave e ameaçadora à vida aparecem com critérios padronizados nos novos fluxos.

02

Menos automatismo com SABA

As doses iniciais ficaram mais conservadoras e a resposta deve ser checada antes de novas administrações.

03

Oxigênio mais seletivo

Em geral, suplementar quando a saturação em ar ambiente estiver abaixo de 92% e titular para 92–95%.

04

CI-formoterol entra no fluxo leve

Passa a ser uma alternativa ao SABA na apresentação leve, quando apropriado e disponível.

O motivo para reduzir o uso reflexo de SABA é clínico: taquicardia, tremor, hipocalemia e acidose láctica podem surgir com doses altas. A hiperventilação compensatória pode ser confundida com broncoespasmo persistente e alimentar um ciclo de novas doses.

Comparação ilustrada entre via aérea aberta e via aérea inflamada e contraída DR.GETULIO OS
A exacerbação combina limitação variável do fluxo expiratório, broncoconstrição, inflamação e muco. Ilustração conceitual; não representa escala anatômica.

Avaliação e gravidade: use a pior característica

A avaliação começa ao mesmo tempo que o tratamento. Observe fala, posição, nível de consciência, frequência respiratória, musculatura acessória, entrada de ar, sibilância, frequência cardíaca, saturação e, se possível, PFE ou VEF₁. Procure também anafilaxia, pneumonia, pneumotórax, insuficiência cardíaca, tromboembolismo pulmonar, corpo estranho ou obstrução laríngea.

ApresentaçãoPistas clínicasDireção inicial
LeveFala preservada, desconforto discreto, sem sinais de falência respiratória.Broncodilatador inalatório, observar resposta e reavaliar antes de repetir.
ModeradaDispneia mais evidente, taquipneia, limitação funcional; piora objetiva do fluxo.Tratamento repetido e monitorado; considerar anticolinérgico e corticoide sistêmico.
GraveFala entrecortada, postura inclinada, agitação, musculatura acessória, SpO₂ baixa ou PFE/VEF₁ muito reduzido.Emergência, tratamento simultâneo, monitorização estreita e avaliação de suporte ventilatório.
Ameaçadora à vidaSonolência, confusão, exaustão, tórax silencioso, deterioração gasométrica.Equipe experiente imediatamente; preparar manejo avançado da via aérea.
Não espere o PFE para agir.

Alteração do nível de consciência, silêncio auscultatório, exaustão ou instabilidade tornam a apresentação ameaçadora à vida, mesmo sem todas as outras medidas disponíveis.

Se houver sinais de anafilaxia junto com a asma, a adrenalina deve vir primeiro; depois, o broncodilatador inalatório. Radiografia de tórax e gasometria arterial não são exames de rotina. Reserve-os para dúvida diagnóstica, suspeita de complicação, ausência de resposta ou deterioração.

Conduta na primeira hora

O tratamento é paralelo, não uma fila de etapas. Ajuste ao grau de apresentação e ao tratamento de base do paciente.

1

Broncodilatador inalatório

Na apresentação leve, o GINA exemplifica salbutamol 4 jatos, um por vez, com pMDI e espaçador, repetindo apenas se necessário durante a primeira hora. Na moderada ou grave, titule frequência e dose à resposta e ao protocolo local. Agite o pMDI imediatamente antes de cada jato.

2

Oxigênio controlado

Considere quando SpO₂ em ar ambiente estiver abaixo de 92%. Se administrado, titule para 92–95%; evite oxigênio indiscriminado em alta concentração. Ajuste a meta em altitude ou diante de condições específicas.

3

Ipratrópio quando a crise é moderada ou grave

A associação ao SABA na emergência reduz internações nesses grupos. O benefício é inicial; não há justificativa para mantê-lo automaticamente após a fase aguda.

4

Corticoide sistêmico cedo quando indicado

Use nas exacerbações moderadas e graves e quando a resposta inicial não se sustenta. Em adultos, a referência do GINA é prednisona/prednisolona 40–50 mg/dia por 5–7 dias. A via oral é preferida quando possível.

Novidade prática

Em exacerbação leve, CI-formoterol pode substituir o SABA como alívio, especialmente quando isso facilita iniciar antes da alta uma estratégia anti-inflamatória de alívio ou MART. Confirme apresentação, dose, dispositivo, disponibilidade e indicação no contexto local.

Sulfato de magnésio intravenoso não é rotina. Pode ser considerado na apresentação grave ou ameaçadora à vida que permanece hipoxêmica ou responde mal ao tratamento inicial. Antibiótico também não é rotineiro: use apenas quando houver evidência de infecção bacteriana.

Reavaliação e destino

Reavalie cedo após a primeira administração na crise leve e formalmente ao redor de uma hora nos demais casos — ou antes, se houver piora. Compare sintomas, fala, trabalho respiratório, ausculta, saturação e função pulmonar quando disponível.

Resposta favorável

Pense em alta quando a melhora se sustenta

  • Sintomas e sinais claramente melhores.
  • Sem necessidade de broncodilatador repetido.
  • PFE em recuperação, em geral acima de 60–80% do melhor pessoal ou previsto.
  • Oxigenação adequada em ar ambiente e suporte domiciliar confiável.
Resposta insuficiente

Escalone o nível de cuidado

  • Persistência ou piora de esforço respiratório.
  • Hipoxemia, queda de fluxo ou exaustão.
  • Necessidade crescente de broncodilatador.
  • Dúvida diagnóstica ou complicação associada.

Em deterioração, envolva precocemente profissionais com experiência em via aérea. A ventilação não invasiva pode ser testada apenas em ambiente monitorizado e por equipe experiente; sedativos devem ser evitados. Intubação em asma grave é um procedimento de alto risco e não deve ser atrasada quando indicada.

Alta sem perder a oportunidade

Uma exacerbação é uma falha de controle e um marcador de risco futuro. A alta não termina quando a ausculta melhora.

  1. 01
    Prescreva tratamento contendo corticoide inalatório.

    Evite deixar o paciente apenas com SABA. Para adultos e adolescentes, priorize uma estratégia com alívio anti-inflamatório quando disponível e apropriada.

  2. 02
    Revise a técnica na prática.

    Peça que o paciente demonstre o uso do dispositivo e corrija cada etapa; orientação apenas verbal costuma ser insuficiente.

  3. 03
    Investigue por que a crise aconteceu.

    Adesão, exposição a fumaça, alérgenos, infecção viral, comorbidades, uso excessivo de alívio e acesso ao controlador mudam o risco.

  4. 04
    Entregue um plano de ação escrito.

    Inclua como reconhecer piora, ajustar inaladores, quando considerar corticoide oral e quando buscar atendimento imediatamente.

  5. 05
    Garanta seguimento próximo.

    Reavalie em 2–7 dias; antecipe quando o risco, a gravidade ou o contexto social indicarem. Encaminhe após internação em UTI ou exacerbações recorrentes.

Armadilhas práticas

Repetir SABA sem examinar de novo

A taquipneia pode refletir acidose láctica por beta₂-agonista, não apenas broncoespasmo.

Interpretar ausência de sibilos como melhora

Entrada de ar muito reduzida e tórax silencioso são sinais de extrema gravidade.

Usar oxigênio como rotina

O alvo é corrigir hipoxemia de forma titulada, e não buscar saturação máxima em todos.

Dar alta sem controlador

O alívio isolado não trata a inflamação nem reduz adequadamente o risco da próxima exacerbação.

Esquecer anafilaxia

Quando os dois quadros coexistem, adrenalina primeiro; broncodilatador em seguida.

Tratar o fluxograma, não a pessoa

Comorbidades, idade, gestação, tratamento prévio e resposta dinâmica exigem julgamento clínico.

Fontes e limites desta síntese

Este texto foi redigido de forma original a partir do documento primário e de materiais institucionais do GINA. Não reproduz tabelas, fluxogramas ou ilustrações da diretriz. Como o GINA é atualizado regularmente e diferenças regulatórias e de disponibilidade existem entre países, confirme o documento vigente e o protocolo institucional antes de aplicar doses ou estratégias.

  1. Global Initiative for Asthma. Global Strategy for Asthma Management and Prevention — 2026 Update. Seção 9: manejo das exacerbações.
  2. Global Initiative for Asthma. What’s new in GINA 2026. Síntese institucional das mudanças.
  3. Global Initiative for Asthma. World Asthma Day 2026. Acesso a inaladores anti-inflamatórios.
Nota de segurança editorial

Esta versão está pronta para revisão técnica, mas permanece marcada como pré-publicação até validação clínica independente do protocolo, especialmente doses, critérios de gravidade e condições de alta.

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